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Publicado: Segunda, 24 Junho 2024 13:59 | Última Atualização: Segunda, 18 Novembro 2024 14:26 | Acessos: 36

INCLUSÃO QUE SE SENTE: RELATO DE EXPERIÊNCIA DA OFICINA DE MAPA TÁTIL EM UMA UNIDADE EDUCACIONAL ESPECIALIZADA

Dayanna Cunha Lopes
Jamily Rodrigues Ferreira
Anna Clara Pereira dos Santos
Andressa do Socorro Gonçalves
Taysse Larissa Melo Lobato
Rafael da Silva Paiva

APRESENTAÇÃO

         O presente relato é resultado de uma pesquisa-ação realizada com o objetivo de expor a vivência por meio do desenvolvimento de oficinas para o âmbito educacional inclusivo, como um princípio de educação para todos e a valorização das diferenças. Ademais, a articulação entre teoria e prática é um desafio constante na educação desde de que as sociedades foram tornando-se mais diversificadas e os conhecimentos a serem repassados de uma geração para outra organizaram-se de forma sistemática em áreas do saber. Neste contexto, um dos caminhos possíveis para garantir uma educação compatível com a realidade atual é a construção de estratégias de integração entre pressupostos teóricos e práticos, o que pode ser caracterizado como as oficinas pedagógicas (Mota, 2017).

         Sob tal entendimento, é fundamental mencionar que há a necessidade de reformulação de todo o sistema educativo, repensando sobre as reais demandas escolares, a respeito de estratégias pedagógicas e curriculares, fazendo com que a escola contemple as diferenças humanas, em uma educação que seja focada na perspectiva inclusiva. Pois, é preciso que a comunidade escolar compreenda que a inclusão é de responsabilidade de todos (Neto et al., 2018). Para isso, é preciso distinguir os processos de integração e inclusão, nesse viés de acordo com a perspectiva de Mantoan (2003), a integração concerne em inserir o aluno ao ambiente existente no qual anteriormente já foi excluído. Quanto à inclusão refere-se a participação plena e igualitária de todos os indivíduos.

         De acordo com os dados levantados pelo Censo Escolar, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), na escala temporal que vai de 2014 a 2018, o número de alunos com deficiência matriculados no Brasil cresceu cerca de 33% em todo território nacional (Sallit, 2019). Nessa perspectiva, evidenciou-se a evasão escolar de uma parte significativa dos alunos com deficiência, pois na maioria das vezes são rotulados como incapazes de atingir os objetivos educacionais, além da influência de situações financeiras e a falta de qualificação profissional.

         A motivação para a realização da oficina na Unidade Educacional Especializada Astério de Campos, em Belém do Pará, foi impulsionada pela busca constante de estratégias pedagógicas inovadoras e inclusivas que como mencionado acima são fundamentais. Diante disso, reconhecendo a importância da integração entre teoria e prática na educação, foi identificado a necessidade de proporcionar uma experiência educativa tangível e acessível para os alunos com deficiência. Assim, por meio das aulas nas disciplinas de Fundamentos Teóricos em Educação Especial e Linguagens Especiais em Comunicação Humana, iniciou-se como requisito para a formação profissional e educacional o processo de elaboração de um mapa tátil, visando não apenas transmitir conhecimentos teóricos, mas também proporcionar uma vivência prática e sensorial.

         Além disso, a motivação residia na crença de que a construção desse recurso didático contribuiria para a aprendizagem significativa dos alunos, promovendo a compreensão espacial de maneira adaptada às suas necessidades específicas. A oficina representou, assim, um esforço em direção a uma educação mais inclusiva, sensível às particularidades dos estudantes atendidos pela unidade especializada.

METODOLOGIA

         A partir das aulas teóricas iniciou-se o processo de visitação na Unidade Educacional Especializada Astério de Campos no município de Belém. Desse modo, com o intuito de conhecer os alunos e a Unidade Educacional, foi realizado um quantitativo de 3 visitas. Em síntese, a primeira visita resultou no conhecimento do espaço escolar e indagações sobre as propostas educacionais oferecidas para os alunos atípicos, a partir das explicações da diretora da Unidade. Na segunda visitação, os discentes universitários foram apresentados para a funcionária mais antiga e através dela ocorreu o batismo, que consiste na escolha de um sinal próprio que o nomeará na comunidade surda, um momento de muita alegria, pois ali foi o primeiro contato de alguns estudantes com a Língua Brasileira de Sinais. Na terceira visita, ocorreu conclusão da pesquisa-ação com a oficina que foi dividida em dois dias, sucederam-se dinâmicas desenvolvidas a partir das especificidades de cada aluno presente, no total 30 estudantes participaram nos dois dias de oficinas.

         Para fins didáticos, o material pedagógico elaborado trata-se de um mapa tátil que contém as cinco regiões do Brasil, onde cada região estava revestida por materiais com uma sensibilidade específica. As regiões estavam distribuídas da seguinte forma: Norte estava coberto de E.V.A vermelho picado, Nordeste estava coberto de milho, Centro-Oeste estava composto de feijão, o Sudeste estava repleto de miçangas azuis lisas e a região Sul estava coberta por algodão. Além disso, foram criados mais dois mapas táteis com as mesmas características, em forma de quebra cabeça, que serviu como requisito avaliativo do conhecimento adquirido pelos alunos. O objetivo principal do trabalho era fazer com que os alunos, através do tateamento, pudessem reconhecer e identificar cada região.

         Esse material foi utilizado na oficina realizada no dia 14 de novembro de 2023, onde os discentes do curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Pará (UEPA) apresentaram os recursos adaptados para os professores e alunos da UEES Astério de Campos. A equipe contou com a ajuda de um intérprete de libras para que os alunos surdos conseguissem compreender o conteúdo do grupo e a proposta da atividade.

         O grupo, composto por oito integrantes, se dividiu para a realização da aplicação do mapa tátil com os alunos presentes, no qual, quatro integrantes se responsabilizaram pela explicação do trabalho, e quatro para o direcionamento da atividade como “avaliação”. A oficina iniciou-se com a explicação das cinco regiões presentes no mapa, seguido de uma característica e de como ele estava revestido, e quais eram os recursos utilizados para representação das áreas. Em seguimento a atividade, outros quatro integrantes explicaram a avaliação proposta pela equipe, que se formulava por um quebra cabeça das cinco regiões do Brasil, sendo assim, o aluno deveria montar o mapa em forma de quebra- cabeça, igualmente ao primeiro mapa apresentado na explicação. Após a finalização do quebra- cabeça os alunos ganharam um brinde depois de concluir a montagem do mapa.   

RESULTADOS

         Diante do que foi exposto, nota-se que o contato dos alunos universitários com os estudantes da unidade, através da oficina, foi enriquecedora para o aprendizado acadêmico e individual de cada um de nós. Sob esse viés, para concluir seu planejamento, a professora reuniu-se com todos os universitários da turma em roda de conversa e ouviu o retorno da experiência de todos. A equipe e a turma chegou à conclusão de que todas as apresentações e atividades não foram feitas da maneira que se esperava, pois foi observado que por mais que os alunos da escola tivessem interessados e entusiasmados, eles não tinham conhecimento prévio sobre o conteúdo que é considerado básico nas escolas.

         A atividade supramencionada evidenciou uma problemática fora da teoria, encontrando falhas no sistema ensino-aprendizagem, uma vez que, foi observado a ausência de recursos didáticos disponíveis para os alunos, causando impacto ao se depararem com as propostas desenvolvidas durante a dinâmica. Além disso, verificou-se pouca compreensão acerca do assunto abordado, no qual se referia as 5 regiões do Brasil, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).Os alunos demonstraram entendimento sobre os materiais que foram revestidos e utilizados para recursos didáticos, no entanto, manifestaram dificuldades para analisar as características de cada região. Contudo, por mais que tais resultados tenham gerado uma quebra de expectativa por parte dos alunos da universidade, todas as equipes conseguiram apresentar a proposta inicial do trabalho.

         Foi observado em especial seis alunos da Unidade Especializada, no qual foi enumerado respectivamente de 1 à 6. O aluno 1, cuja tem 36 anos e possui baixa visão, está matriculado na 3° etapa do EJA, no decorrer da atividade o aluno contou com o auxílio do professor para realizar a atividade proposta e compreendeu o conteúdo abordado junto a dinâmica. Em seguida, o aluno 2, cuja tem 36 anos e possui deficiência auditiva, está matriculado na 2° etapa do EJA, no decurso da atividade o estudante teve a compreensão do exercício porém sentiu dificuldades para realizar o processo de montagem do quebra-cabeça.

         A aluna 3, na qual tem 45 anos e possui deficiência auditiva, está cursando a 1° etapa do EJA, a estudante concentrou-se na explicação e foi disposta a realizar atividade, no entanto não concluiu. Ademais o aluno 4, no qual têm 27 anos e possui deficiência auditiva, o aluno tateou o mapa demonstrando bastante interesse nos materiais utilizados na produção do mapa. Ao longo da atividade, rapidamente e com muita facilidade compreendeu o que era para ser feito, e montou o quebra cabeça corretamente.

         O estudante 5, tem 40 anos e possui deficiência auditiva, ele no decorrer do exercício rapidamente compreendeu que era para montar o quebra-cabeça, porém apresentou algumas dificuldades na hora de encaixar as peças, mas não desistiu, quando finalmente concluiu corretamente a montagem do quebra cabeça. Por fim, o aluno 6, no qual têm 22 anos e possui múltiplas deficiências, prestou atenção no início da explicação do trabalho, porém ficou disperso, e na atividade ele teve alguns entraves, no qual necessitou do auxílio dos universitários para concluir o exercício.

         A partir dos resultados analisados é possível observar aceitação e entusiasmo por parte dos alunos o que mostra a grande importância dos recursos didáticos em uma perspectiva inclusiva visando atender às necessidades de aprendizagem de cada aluno. Além disso, observou-se ser possível trabalhar estratégias inclusivas com materiais de baixo custo. A produção dessa atividade proporcionou uma experiência enriquecedora aos pesquisadores. Espera-se que esse trabalho beneficie a comunidade docente, inspirando professores a conduzir pesquisas alinhadas com os princípios da inclusão escolar. Isso não apenas ampliará o conhecimento dos alunos que frequentemente enfrentam exclusão na sala de aula, mas também enriquecerá o desenvolvimento profissional dos educadores (Ferraz et al., 2023). Na figura 01 é possível analisar a aplicação do mapa tátil com os alunos.

Figura 01: Aplicação do mapa tátil
 
Fonte: Este trabalho

         Na figura 02 é possível analisar o mapa tátil que foi utilizado na explicação pelos universitários.

Figura 02: Mapa tátil produzido pelos universitários

Fonte: Este trabalho

         A utilização deste recurso didático possibilitou aos alunos construir conhecimentos geográficos por diferentes perspectivas sendo fundamental para o aprendizado dos mesmos. Os mapas táteis são recursos educativos valiosos para representar informações espaciais de forma reduzida através de linguagem tátil. Diferentemente dos mapas convencionais, não há padrões cartográficos táteis globalmente reconhecidos, sendo cada país responsável por desenvolver seus próprios padrões e normas, considerando recursos disponíveis e o nível tecnológico. A confecção desses mapas requer cuidado ao definir o que será traduzido e como, o que muitas vezes resulta em generalizações em relação aos mapas convencionais. No contexto dos alunos, é essencial considerar as diferentes faixas etárias e o desenvolvimento cognitivo e espacial, adaptando os mapas para garantir compreensão eficaz. A criação de mapas táteis deve também se adequar ao contexto tecnológico do país e preparar os alunos para manuseá-los, considerando suas habilidades táteis e cognitivas. Em resumo, a elaboração e uso de mapas táteis demandam uma abordagem personalizada, considerando as particularidades do ambiente educacional e do público-alvo (Carneiro et al., 2023).

         Consideramos que a experiência vivenciada na oficina com a utilização de mapas táteis como recursos didáticos ofereceram aos alunos a oportunidade de construir conhecimentos por meio de diferentes perspectivas. Especificamente, para alunos com deficiência visual, esses mapas proporcionam acesso equitativo às informações, permitindo que eles construam imagens mentais associadas às explicações dos professores. Isso contribui para uma aprendizagem mais inclusiva, onde todos os alunos, independentemente de suas habilidades visuais, podem participar ativamente na construção de seu entendimento espacial (Carneiro et al., 2023).

         Além disso, é possível perceber a importância de construir recursos didáticos para alunos com deficiência visual. De acordo com Jordão e Sena (2015), no ensino de Geografia, os professores demonstram preocupação em relação aos métodos e recursos necessários para garantir uma aprendizagem efetiva dos alunos cegos que frequentam salas de aula regulares. Observa-se uma lacuna no Brasil em comparação a outros lugares, pois os recursos didáticos não são frequentemente adaptados com texturas, relevos ou formas diferenciadas para facilitar a compreensão dos conceitos geográficos por parte dos alunos cegos. Em vez disso, a prática comum envolve a reprodução ampliada e a audiodescrição como meios de explicar o espaço geográfico a esse público específico.

         Diante disso, este trabalho se mostrou fundamental por propor tais reflexões diante da inclusão educacional. De forma geral, a oficina teve um resultado positivo, pois promoveu a interação de alunos com deficiência. O que é fundamental pois, atualmente trata-se de um consenso por parte dos educadores que a sociedade demanda profissionais capazes de desempenhar suas funções de maneira inclusiva, especialmente atendendo às diversidades que podem existir. Outro aspecto observado é que ao proporcionar ao aluno deficiência visual e auditiva a possibilidade de compreender diferentes tipos de informações por meio do recurso tátil, isso poderá contribuir para sua inclusão. Principalmente, ao evidenciar procedimentos que possibilitam aos alunos cegos se localizar e se deslocar em seu espaço de vivência, o que pode lhe garantir maior autonomia (Paulo et al., 2020).

CONSIDERAÇÕES

         As reflexões discutidas neste relato de experiência afirmam a importância da utilização de metodologias assistivas no âmbito educacional. Nessa perspectiva, refletimos sobre a relevância do mapa tátil como recurso didático que evidenciou eficácia como uma ferramenta valiosa na promoção da inclusão e acessibilidade de informações geográficas. Ele atende às necessidades tanto de estudantes com deficiência visual quanto daqueles sem essa condição, desempenhando um papel significativo na busca por uma educação mais equitativa e acessível a todos.

         Sob esse viés, constata-se a necessidade da inclusão igualitária diante dos aspectos educacionais e sociais, tendo como fundamento as Teorias de Maria Teresa Eglér Mantoan, que evidenciam a relevância da educação inclusiva. Para tanto, há necessidade da criação de estratégias pedagógicas com o intuito de ampliar o desenvolvimento do ensino e aprendizagem, despertando no aluno a autonomia e o sentimento de pertencimento ao meio social que está inserido no processo socioeducacional.

         No entanto, vale ressaltar os entraves encontradas no caminho, dentre eles foi a dificuldade de comunicação com os estudantes no dia da oficina, uma vez que os universitários não tiveram a disciplina de Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), mas, contaram com o total apoio dos intérpretes e professores da unidade, adjacente as dificuldades de comunicação, a equipe procurou aprender a saudação, o seu nome e o seu sinal para apresentar-se aos alunos, ademais, em todo o passo a passo da construção do recurso houve essa sensibilidade e preocupação de elaborar o mapa a partir de materiais que não colocasse risco de ferir as mãos dos participantes, e ter a diferença no tato de um material para outro assim, há uma melhor distinção entre as regiões na hora de montá-las. Pode-se considerar que desde a leitura e apresentação do texto em classe até produção do mapa tátil o conhecimento prévio discutido pela professora e orientadora foi fundamental para o desenvolvimento da pesquisa-ação. Subitamente, é fato, que ver os alunos interessados no mapa e deslumbrados com o material utilizado para explicação daquele determinado assunto, trouxe a perspectiva clara da falta de recursos pedagógicos inclusivos como apoio para os assuntos mais complexos abordados em sala como nesse caso a geografia, trabalhando a territorialidade, escala entre outros.

         Por fim, desenvolver práticas pedagógicas inclusivas não é apenas relevante, mas indispensável, uma vez que a educação inclusiva é modalidade do ensino e garante a cada um dos alunos reconhecer e respeitar as diversidades de cada um, de acordo com sua potencialidade e necessidade.

REFERÊNCIAS

CARNEIRO, José et al. O uso de mapas táteis no estágio curricular supervisionado em Geografia. Metodologias e Aprendizado, v. 6, p. 13-23, 2023.

FERRAZ, Júlia Maria Soares et al. CinesQuím inclusivo: uma estratégia para um ensino de química acessível. Revista INTER EDUCA, v. 5, n. 2, p. 147-161, 2023.

JORDÃO, Barbara Gomes Flaire; DE SENA, Carla Cristina Reinaldo Gimenes. Cartografia tátil e o ensino de Geografia: a experiência do globo adaptado. Acta Geográfica, v. 9, n. 21, p. 148-160, 2015.

MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Inclusão Escolar: O que é? Por quê? Como fazer?. Revista Moderna, 2004.

MOTA, Ronaldo. A arte da educação. Rio de Janeiro: Obliq, 2017.

NETO, Antenor de Oliveira Silva et al. Educação inclusiva: uma escola para todos. Revista Educação Especial, v. 31, n. 60, p. 81-92, 2018.

PAULO, Jacks Richard de et al. Diálogo sobre a elaboração/construção de materiais didáticos táteis para inclusão de alunos cegos. 2020.

SALLIT, Mathias. As maiores representatividades de pessoas com deficiência nas universidades do Brasil. Revista Quero Bolsa, 2019.

 

VERSÃO ORIGINAL

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